Como a educação ao ar livre nos ajuda a passar por uma pandemia

"Não sou instrutor apenas quando estou em campo. Mais do que isso: encaro todos os compromissos, desafios e oportunidades como se fosse um programa Outward Bound."

Por Nick McEachern

 

Como muitas outras pessoas, à medida que as notícias continuam surgindo sobre a pandemia atual, começo a vê-la como um dos desafios mais importantes da minha vida. Expressões como “sem precedentes” e “crise” dominam o meu feed de notícias enquanto penso sobre uma nova realidade de distanciamento físico, desemprego e incerteza sobre o meu futuro.

Sou instrutor da Outward Bound. Essa identidade permeia todos os detalhes da minha vida. Não sou instrutor apenas quando estou em campo com meus alunos. Mais do que disso, encaro todos os compromissos, desafios e oportunidades como se fosse um programa Outward Bound

Com muito tempo para refletir recentemente, percebi que as lições que aprendi ao longo dos meus anos em expedições me prepararam para enfrentar esse desafio da mesma maneira que encaro corredeiras de rios, tentativas de cumes de montanhas e os longos dias em áreas remotas.

Desde a chegada da nossa escola nos Estados Unidos, em 1961, as montanhas, os rios e as trilhas foram os professores de dezenas de milhares de instrutores e participantes de expedições Outward Bound, que terminam os programas prontos para explorar esses novos aprendizados em suas vidas.

"O objetivo central da educação ao ar livre é nos preparar e nos fornecer as ferramentas para resolver problemas futuros. Em campo, intencionalmente nos colocamos a frente de experiências físicas e sociais estressantes e difíceis, para que, no futuro, tenhamos consciência do que é necessário para prosperar na adversidade."

A seguir, listei algumas das lições mais importantes que aprendi em expedições e refleti sobre como as estou aplicando à minha vida agora.

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PACIÊNCIA

As informações mais atualizadas sobre a pandemia nos deixam com mais perguntas do que respostas. Existe uma tremenda quantidade de incerteza em nossas vidas, e não sabemos quanto tempo o mundo será assim. Uma solução para esse desafio é a paciência. Siga os conselhos dos profissionais de saúde e do governo e pratique o distanciamento físico.

Como não é assim que normalmente vivemos, não será fácil. Às vezes, ficaremos desconfortáveis. No entanto, seguir alguns hábitos regulares e procurar um tipo de normalidade fará com que essa trilha desconhecida pareça um lar.

Uma parte importante de um programa Outward Bound é o que chamamos de solo. Ele dura de algumas horas a alguns dias, mas geralmente significa que os alunos estão sozinhos, sem o conforto de sempre, e estão restritos a um espaço reduzido, em uma área natural. De certa forma, estamos em um solo não planejado no momento. Pergunte a qualquer ex-aluno da Outward Bound sobre sua experiência solo e eles lhe dirão que a paciência é uma parte importante da conclusão do processo.

Lembre-se de que você é capaz de muito mais do que imagina. Ficar em casa e ser paciente é uma das melhores coisas que você pode fazer agora, mesmo que pareça a coisa mais difícil de fazer. 

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COMUNIDADE

Nossos amigos, familiares e vizinhos precisam de nós agora mais do que nunca. Em campo, quando a mochila de alguém é muito pesada, o grupo tira coisas da mochila dessa pessoa para aliviar sua carga. Quando uma expedição da Outward Bound envolve descer corredeiras de um rio, a única maneira de chegar com segurança ao fim da corredeira é através do trabalho em equipe e da confiança mútua. Precisamos lembrar que estamos juntos nisso. Agora é a hora de nos apoiarmos em nossos entes queridos e pedir ajuda.

Na semana passada, um amigo se ofereceu para trazer papel higiênico e outro amigo nos entregou farinha para que pudéssemos assar pão. Embora as interações com a nossa comunidade certamente sejam muito diferentes, isso não significa que a comunidade não exista. Em tempos de crise, todos precisamos de ajuda e será muito mais fácil se resolvermos esse problema juntos.

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ACIMA DE TUDO, COMPAIXÃO!

Agora é hora de compromisso e união. Precisamos abordar todas as decisões em nossos dias através das lentes da compaixão e da compreensão.

Em um curso no verão passado, tínhamos planejado e treinado para uma tentativa de subir o pico Middle Sister, na área central de Oregon. No dia em que deveríamos subir para o cume, acordamos com temperaturas abaixo de zero, ventos de mais de 60 km/h e neve soprando em nossos rostos. Em vez de ficar chateado com a nossa situação, o grupo se reuniu para fazer algumas bebidas quentes, e pensar a travessia do terreno com eficiência e segurança.

Em tempos de luta, nosso verdadeiro caráter é revelado. Nossa equipe cuidou um do outro e colocou o objetivo mais alto da segurança muito acima de suas necessidades e desejos pessoais.

Vamos dar uma mão ao nosso vizinho? Faremos sacrifícios por mudar nossa rotina diária, em um esforço para manter os outros seguros? Se você estiver no mercado e cogitar tirar a última caixa de macarrão da prateleira, pergunte a si mesmo se realmente precisa. Se você praticar diariamente atos de compaixão, ficará orgulhoso de suas decisões.

O diretor executivo da Northward Outward Bound School, Marc Heisterkamp, estava falando disso quando colocou em um texto de um email recente para sua equipe a seguinte mensagem: “Este é o curso para o qual estamos nos preparando há tempos”. Essas palavras me marcaram. É o mesmo conselho que eu daria aos meus ex-alunos e colegas, e é a mesma mensagem que eu estou repetindo diariamente para mim.

Coletiva e individualmente, temos a força, o conhecimento e a capacidade de vencer esta crise de maneira segura e compassiva. Nossas decisões cotidianas farão uma enorme diferença em nossas vidas e na vida dos outros. Encorajo todos vocês a se aprofundarem um pouco para encontrar um pouco de paciência, abraçar sua comunidade e, acima de tudo, apoiarem-se mutuamente por compaixão. Encontro vocês do outro lado do rio, lá no fim da corredeira.

 

Nick McEachern é um instrutor Outward Bound que divide seu tempo entre Oregon Central e Salt Lake City nos Estados Unidos. Sua paixão é procurar maneiras aventureiras de viajar por paisagens e cursos de água com seus amigos. Ele gosta de tomar café ainda dentro do saco de dormir e de remar contra o vento. outwardbound.org/blog

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